“La Crème de la Crème” da Pastelaria Fina

Foto: Soraya Vasconcelos

Foto: Soraya Vasconcelos

O intrigante e luxuoso produto mostrado nesta página é provavelmente o mais barato e acessível desta revista: custa 90 cêntimos e pode ser comprado na pastelaria e restaurante Rosa dos Mares, em Lisboa. É uma raríssima variante do bolo Pirâmide, o qual pode ser encontrado por todo o país, tal como todos os bolos que constituem a chamada “Pastelaria Fina”.
E é a estes bolos que nós – eu próprio, a Rita João e o Pedro Ferreira – temos dedicado grande parte do nosso tempo e atenção durante os últimos 12 meses: os mesmos que nós – portugueses – comemos todos os dias, e que são fabricados em dezenas de pastelarias e pequenas unidades industriais de todo o país, numa perpetuação de moldes e receitas que desconhecemos, mas que reconhecemos imediatamente.

Este fenómeno, a que chamamos de pastelaria semi-industrial portuguesa, é exclusivo do nosso país; nenhum outro tem uma riqueza igual no que caracterizamos de “pastelaria quotidiana”. As receitas podem ser secretas, mas os seus resultados são acessíveis a todos nós — das pastelarias mais chiques aos bares de liceu, das estações de comboio ao café da esquina. Ao contrário da sofisticada “alta pastelaria” francesa, ou das exóticas especialidades asiáticas, não há nada de luxuoso nos bolos que alimentam o nosso país. Ou há?

Como designers, achamos que cada um destes bolos pode ser visto como um objecto de design de pleno direito, como o resultado de um processo de natureza projectual que caracteriza esta disciplina, onde forma, ingredientes, materiais, método, instrumentos de fabrico e o nome certo se conjugam para chegar a um produto final. Aos quais se junta, por vezes, um “toque especial”.

A Pirâmide é o exemplo acabado disso. É um bolo que fascina e intriga milhares de portugueses desde a sua infância, não só pelo seu nome não coincidir com a sua cónica forma, mas sobretudo devido ao mito urbano que perpetua. De acordo com a suspeita popular, é feita de restos de outros bolos, explicando que por baixo da cobertura de chocolate, o recheio seja diferente de dia para dia, de sítio para sítio.

Na nossa extensa e sistemática exploração do universo pasteleiro português, descobrimos que tal é apenas parcialmente verdade: as aparas resultantes do corte de massas cruas de outros bolos são amassadas, condimentadas e cobertas de chocolate, mas todo o processo se desenvolve na cozinha sob as mais estritas regras de segurança e higiene alimentar. E antes de ir para o balcão ou para a montra, onde são guardados – e exibidos – os mais finos dos bolos, uma Pirâmide não fica completa sem antes levar a “cereja no topo” da sua coroa de chantilly.

Este é para nós um bolo feito de todos os outros bolos, um eco-bolo (reciclando desperdícios pré-consumo), o bolo dos bolos. E é um bom ponto de partida para ilustrar as muitas dimensões – criativas, populares, literárias, visuais, sociológicas, económicas, arquitectónicas até – do “Design da Pastelaria Semi-industrial Portuguesa”, subtítulo do livro “Fabrico Próprio”, o qual contamos lançar em Janeiro de 2008. Esta delicada e luxuosa Pirâmide, de chocolate branco e creme de cacau, é apenas um das suas mais de 250 páginas.

Originalmente publicado na revista Blue Design #3



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