Um novo desafio

 

Já passava da 1 da manhã quando há quatro meses saltei da cama e enviei um email à Joana Amaral Cardoso. Entre outras coisas, escrevi:

Queria propor-te uma secção para a Pública. Há uns dias pensei num formato de entrevista em que se falasse das coisas do nosso dia a dia que são projectadas, todos os dias, por designers.

Não as cenas que muitas vezes são descritas como “design”, como cadeiras, candeeiros ou afins. Mas coisas bem mais banais, como as embalagens do Continente; os mapas do metro do Porto; os assentos do metro de Lisboa; um selo dos CTT, o site das finanças ou mesmo as bicas da SuperBock.

Quem são as pessoas por trás das coisas? Quais foram os seus desafios, sucessos e obstáculos?
Estava agora a pensar se isto resultaria para a Pública… Até pensei num título: O Design Nosso de Cada Dia.

Conheço a Joana desde ela mandou uma muito exigente e intrigante lista de perguntas à Ellen Lupton quando esta veio a Lisboa em 2006 para o congresso da Atypi. Mais tarde, depois de ela ter escrito o melhor artigo já publicado sobre o Fabrico Próprio, eu, o Pedro e a Rita convidámo-la para participar no nosso workshop.

Desde há uns meses que a Joana é a subeditora da revista Pública. A revista de domingo do Público tem mostrado ser o meio ideal para voltar a falar, criticamente, sobre design em Portugal junto do “público em geral.” Sem estar preso a calendários de lançamentos de produtos, nem a feiras, eventos ou exposições de design. Sem ter que necessariamente “promover o novo.” Mas também sem ter de escrever muito de uma só vez.

Daí que no email de desafio que enviei à Joana acrescentei: “1 página: foto do objecto (foto do designer, a meu ver, não é tão relevante) + Q&A”. E escolhi logo o primeiro objecto e sujeito(s): “Cartão de Cidadão, projectado pelo Henrique Cayatte com tipos de letra do Mário Feliciano.”

A Joana gostou da ideia. A Margarida Santos Lopes, editora da Pública, e a Bárbara Reis, directora do Público, também.
Demorámos algum tempo a afinar caracteres, formatos e periodicidade, mas há umas semanas escolhemos a primeira data de publicação e começámos a trabalhar nesta nova rubrica.

Depois de entrevistar o Henrique Cayatte e até de tirar o meu próprio Cartão de Cidadão, entreguei o texto a tempo de sair hoje, dia de eleições.

Este é o primeiro dos textos em que, todas as semanas e pelo menos durante os meses de Verão, falarei sobre objectos, produtos, interfaces ou serviços que fazem parte das vidas dos portugueses. E que muitas vezes, ou a maior parte das vezes, nos passam despercebidas.

A seguir virão coisas tão díspares quanto as 53 capas da colecção Uma Aventura, alguns segundos do Jornal da Noite da SIC, duas gerações de placas de informação e classificação hoteleira, o “quarto de Vigor” (uma garrafa tornada literalmente em ícone) e a grande embalagem urbana que é o Oleão.

Sugestões de objectos e sujeitos são muito bem-vindas. E claro, críticas construtivas.
Preferencialmente para o meu email, frederico[at]05031979.net



3 Comments

  1. Manuel Lima wrote:

    Excelente ideia Fred! Fico a aguardar futuras rubricas…

  2. Vania Milhão wrote:

    Muitos parabéns Frederico, adorei a iniciativa!
    Fica já prometido – irei ser uma leitora assídua :)

    Logo nas primeiras linhas da apresentação deste teu projecto, voltei a recordar os honrados prémios Compasso d’oro a ignoti, atribuídos por Bruno Munari aos criadores de objectos de design comuns, presentes no nosso dia a dia. Tal como referiste, exemplos tão banais como o saco de plástico são objectos realmente bem projectados. Há que assinalá-lo!

    Fica aqui mais uma dica: que tal procurar os objectos que nos acompanham, a nós humanos, há já muito, muito tempo? Passo a explicar, com um exemplo: já ninguém usa cassetes, foram ultrapassadas por soluções melhores, mas, todos nós, de crianças a velhinhos, continuamos a usar colheres. Podemos assim concluir, um pouco como a teoria da selecção natural de Darwin, que a colher tem vindo a conseguir adaptar-se e a sobreviver ao longo das gerações, enquanto que outros objectos, como a cassete, se foram extinguindo. Quero com isto dizer que são estes objectos que há tanto tempo existem, os que realmente têm o seu mérito! Continuam a funcionar… simples e indispensáveis. Consegues lembrar-te de mais exemplos?

    Deixo-vos com uma reflexão de Munari:
    « Il sogno dell’artista è comunque quello di arrivare al Museo, mentre il sogno del designer è quello di arrivare ai mercati rionali. » B. Munari

    (“O sonho do artista é chegar ao Museu, enquanto que o sonho do designer é chegar aos mercados locais. “)

    Votos de sucesso!
    vAnia

  3. Excelente ideia e iniciativa.