Face Portuguesa do Euro

© Daniel Rocha/Público

Este é o Verão quente do Euro. Assolados por dívidas – e dúvidas – soberanas, os 17 dos 27 países da União Europeia que partilham a mesma moeda têm feito de tudo para salvar os seus depósitos, os seus bancos – e a sua face. Mas que face, ou faces, têm os euros que temos nos bolsos desde 1 de Janeiro de 2002?

Desenhadas pelo designer austríaco Robert Kalina, as sete notas mostram pontes e janelas, sínteses ficcionais de estilos arquitectónicos e proezas da engenharia europeia. Enquanto as notas são iguais para todos, as oito moedas em circulação têm dois lados: um anverso comum, projecto do designer belga Luc Luycx, e um reverso nacional.

As faces nacionais destas moedas exprimem não o seu valor pecuniário, mas o seu valor simbólico. Fazem-nos através de efígies reais (Bélgica, Espanha, Luxemburgo e Países Baixos), mas também de flores (Áustria), um ramo de carvalho (Alemanha), cisnes em voo (Finlândia), um petroleiro (Grécia), uma montanha (Eslováquia) ou o mapa do país (Estónia). Mitos da antiguidade, como a grega Europa raptada por Zeus, juntam-se a imagens e símbolos como a águia alemã, o leão finlandês, a cruz da Ordem de Malta, a harpa celta irlandesa, um ídolo do calcolítico cipriota ou Marianne, a face da república francesa. Algumas têm monumentos, como o Coliseu de Roma, o castelo de Bratislava ou a catedral de Santiago de Compostela; outras, escritores como o espanhol Miguel de Cervantes, o esloveno France Prešeren ou a austríaca Bertha von Suttner. As faces portuguesas do euro não têm nada disto.

Formado em escultura, Vitor Santos trabalhou como designer gráfico em editoras e agências de publicidade antes de integrar o gabinete de conceito e design dos CTT, onde trabalhou entre 1980 e 2006. Em 1990 venceu o seu primeiro concurso de medalhas, iniciando a sua obra medalhística. Em 1996 foi um de três portugueses a concorrer à face comum do euro. Não foi seleccionado. Mas dois anos depois venceu o concurso para a face portuguesa da moeda.

A sua proposta partia do requisito desta face ter as estrelas da União para, a partir delas, reconstruir o escudo nacional. Face-a-face com as doze estrelas colocou os sete castelos e cinco escudetes (quinas) portugueses; entre eles, doze caracteres: oito letras (Portugal) e quatro números (ano de emissão). O que parece ser um resultado de uma feliz coincidência de números ou combinação de símbolos em círculos concêntricos (no bordo da moeda de €2 há outro) foi antes fruto de muitos esboços: “Estas formas só se encontram trabalhando, aprofundando, desenhando: um tipo sem desenhar não chega lá”, diz Santos.

No centro da moeda recusou eleger heróis ou monumentos para encontrar na palavra uma afirmação da soberania nacional. Ou melhor, na palavra-sinal, o selo de validação ou autenticação régia que D. Afonso Henriques usou no primeiro reinado de Portugal enquanto nação independente. Escolheu três destes selos (datando de 1134, 1142 e 1144) e associou cada um deles a um grupo de moedas. Interessou-se menos pelo seu “aspecto histórico” do que pelo “grafismo e beleza” da palavra Portugal, expressa sempre com a cruz de Cristo.

Ao confiarem numa primeiríssima afirmação da nacionalidade como seu elemento central, as oito faces portuguesas de Euro não são, hoje, de leitura óbvia. Também não reflectem as expansões, contracções e mudanças de regime do nosso estado-nação ao longo da sua história (como, por exemplo, a sua actual natureza laica e republicana). Mas não são moedas a tentar ser outra coisa: cada uma das três composições, radiantes do centro para a periferia de cada círculo de metal, reproduz de forma equilibrada inequívocos símbolos nacionais, tendo em conta o meio que os comunica e o objecto que os transporta. E isso não é pouco.

Santos assume que a face portuguesa que deu ao euro é um corolário da sua carreira, em que aliou o design de selos – também eles valores nacionais, ao nível pecuniário e simbólico – à arte da medalhística. Mas sabe que “a maior parte das pessoas nunca reparou que temos uma moeda de euro”. O que não o admira: afinal, o euro “não é uma moeda que se dirige ao coleccionador”, uma coisa que se guarda, estima e contempla. É antes, e acima de tudo, “um objecto com que se paga”.

BI
Face Nacional das Moedas de Euro

Design
Vitor Santos

Cliente
Secretaria de Estado do Tesouro/Imprensa Nacional Casa da Moeda

Datas
Fevereiro 1998: Selecção da proposta em concurso nacional
1998 (6 meses): Desenvolvimento da proposta (modelos, gessos e cunhos)
2002: Entrada em circulação

+ info: www.incm.pt



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