Paredes brancas, povo mudo?

25 de Abril de 1974: a madrugada em que as paredes de Portugal ganharam uma nova voz. Ou melhor, uma imensa, caótica, plural e intensamente livre cacofonia de novas palavras, imagens e símbolos que fizeram dos anos da revolução uma verdadeira Primavera gráfica.

Artistas e designers, tipógrafos e fotógrafos projectaram, produziram, distribuíram e afixaram um número nunca antes e nunca mais visto de cartazes. As suas mensagens, tão poéticas quanto eficazes, tão efémeras quanto duradouras, tão utópicas quanto urgentes trouxeram, para um espaço público recém-conquistado, representações visuais de movimentos e partidos, ideias e ideologias, ajuntamentos e manifestações, plenários e comícios. Tal como os panfletos, jornais e murais de então, estes cartazes celebravam, em tinta, papel e cola, a nossa vida em comum – a política.

O período entre 1974 e 1976 foi histórico também para o design gráfico português, pois nunca como então se criaram tantos – as tiragens chegavam aos 250 mil exemplares – e tão bons cartazes políticos. Alguns estão bem gravados na nossa retina colectiva; muitos outros, salvos de paredes e gavetas, encontram-se guardados em arquivos e colecções –  Biblioteca Nacional, Universidade de Aveiro – onde aguardam a sua redescoberta.

Ao longo das décadas seguintes o lume ideológico baixou, a imprevisibilidade política tornou-se em inevitabilidade partidária e a estratégica publicitária substituiu-se à agitação gráfica. Os jornais acabaram, os murais esvaneceram-se. Por cima dos cartazes foram colados anúncios ora a sabonetes, ora a candidatos. Tanto no discurso político como no design gráfico, a urgência foi dando lugar à complacência, o risco à previsibilidade, a surpresa à segurança, a poesia ao método, o colectivo ao indivíduo, o rasgo ao estilo, a confiança ao marketing, o cidadão ao consumidor.

Quase quarenta anos depois e quando pouco parece restar das vozes, paredes e outras conquistas de Abril, estaremos a assistir a uma nova Primavera gráfica? Entre os ecos do movimento Occupy e das revoluções no norte de África, o impacto das grandes manifestações apartidárias e a inspiração da arte urbana, a rua está a ser redescoberta como um espaço de expressão de cidadania e um campo de reacção criativa onde se exige, através do que o sociólogo catalão Manuel Castells chama de manifestações emocionais perante uma situação intolerável, a reclamação de uma dignidade perdida.

Como as paredes de hoje são feitas tanto de tijolo como de píxeis, parece já não ter de se imprimir centenas de milhares de cartazes para veicular uma mensagem de protesto: a sua disseminação digital e feedback mediático são rápidos quanto poderosos. Mas face ao excesso de informação, à espiral auto-referencial e à ironia gratuita e autodestrutiva que afecta muita da comunicação nos media sociais – e também porque a vida e a política não se esgotam na internet – mais e mais criadores de imagens deixam de protestar apenas nos seus murais do Facebook para, mais uma vez, dar voz às paredes e ao povo que os rodeia.

Confrontados com um espaço público que se foi regulamentando e depauperando, designers, artistas e outros cidadãos vêm transformando paredes, suportes de informação e estruturas publicitárias em plataformas de protesto. Aqui, os cartazes dão lugar ao grafitti caligráfico, ao stencil ou mesmo ao azulejo tipográfico, entre outras técnicas e acções. Como os autocolantes com logotipos anonimamente colados em 2012 nos diagramas do metro de Lisboa (que denunciavam a Baixa-Chiado PT Bluestation, uma parte da cidade simbolicamente privatizada em 2011 onde a própria liberdade de expressão é limitada pelos “valores” da marca). Ou as acções de subvertising do Exército de Dumbledore, também no metro (150 cartazes afixados em 2012 nas carruagens como reacção à homofobia da administração da empresa) e, mais recentemente, num outdoor apelando à manifestação de 2 de Março.

Por todo o país e sob o pseudónimo de ± o designer/artista Miguel Januário tem, através de meios que vão do cartaz à performance, dado uma presença tão subversiva quanto monumental ao design gráfico no meio urbano. No Porto, da Oficina Arara têm saído cartazes impressos em serigrafia com imagens poderosas, agressivas e desconfortáveis, mas com uma valente dose de humor, escárnio e provocação – características tão estranhamente ausentes do actual design gráfico português.

Esta “arena d’artes gráficas e outros movimentos inconclusivos” tem liderado e inspirado outros colectivos e oficinas, que começam a canalizar a energia e o talento de designers gráficos – estudantes e profissionais – para coisas mais urgentes e necessárias do que, por exemplo, um flyer para uma discoteca. Onde o design se revela uma actividade saudavelmente menos obcecada com a forma e mais preocupada com a expressão.

Tragam o que nos trouxerem as próximas madrugadas, que estas novas mensagens deixadas nas ruas nos ajudem a dizer, as vezes que forem precisas: paredes brancas nunca mais.

Este texto foi publicado em Abril de 2013 no jornal LISBOA CAPITAL REPÚBLICA POPULAR do MusicBox Lisboa, a convite do João Pacheco. Com o mote “A Palavra está na Rua”, o MusicBox tem no seu site uma galeria de fotografias das paredes “com voz”, para a qual procura contribuições.

1 Comment

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