É Proibido Proibir!

Vista da Exposição © Susana Pomba

Caetano Veloso grita numa sala do MUDE. Na verdade, Caetano grita num ecrã embutido numa parede do museu. Nesse ecrã, legendas amarelas dão forma a esta e outras frases de protesto que vão surgindo sobre uma fotografia do cantor enquanto jovem. Uma destas frases, gritadas como defesa às vaias, ovos e tomates com que ele e Os Mutantes foram recebidos no teatro TUC de São Paulo em 1968, onde estes gritos foram gravados, é “é proibido proibir”.
Inspirada numa das máximas da revolta estudantil de Maio de 68, esta canção de Caetano, o seu grito contra a ditadura brasileira tornado hino do movimento Tropicália, empresta o título à mais recente exposição temporária do museu do design e da moda de Lisboa.

Caetano grita no que é a antecâmara da exposição. Aqui, as paredes estão forradas a carpélio rosa-choque. Caixas de luz mostram imagens coloridas e pessoas felizes de cabelos compridos. O chão foi coberto por vinil brilhante às riscas pretas e brancas. O tecto é uma laje esventrada de cimento. A exposição “É proibido proibir!” ainda nem começou, mas os gritos de Caetano, o choque do carpélio, o psicadelismo das imagens e o cinzento do cimento manifestam já o desequilíbrio e o desconforto que se seguem.

Uma parede de texto introduz o tema, os objectivos e o enfoque geográfico da exposição. Em traços largos, esta “rotação” da colecção Francisco Capelo pretende mostrar de que forma o design de produto, mobiliário e vestuário espelhou as transformações sociais, culturais e tecnológicas ocorridas no continente europeu (particularmente em Itália e Inglaterra) entre 1960 a 1973.
Mais à frente, é verde o carpélio que forra o escuro cubículo onde é projectado um vídeo mostrando (arrisco eu, não há qualquer legenda) estudantes parisienses em animada discussão. Livros de autores como Foucault, Beckett ou Lacan pendem do tecto. Adivinho o que estes livros fazem aqui, mas duvido que alguém queira ler pós-estruturalismo e outras teorias na mais deprimente sala de leitura do mundo.

Na galeria principal de exposição, plataformas de carpélio branco elevam-se do chão em planos nada, pouco ou muito inclinados. Tipologias mais ou menos convencionais de assentos encontram-se assentes nesta plataformas junto a candeeiros e objectos como um televisor ou uma máquina de escrever. Manequins de alfaiate vestem históricas roupas. Misteriosas “nuvens” de feltro geotêxtil (vulgo drakalon) amarradas com corda pairam sobre os visitantes ou estão pousadas nas ditas plataformas. Manequins de loja, despidos e de braços no ar, aparecem misteriosamente aqui e ali.
Outras peças estão alojadas em “casinhas” de policarbonato translúcido com chão de carpélio verde. O candeeiro Moloch de Gaetano Pesce lembra o candeeiro-mascote da Pixar, aqui sobredimensionado, triste e enclausurado. O serviço de mesa Maxde Lella e Massimo Vignelli partilha outra casinha com os coposSmoke e a Minikitchen de Joe Colombo. Pratos, canecas e copos, espalhados pelo balcão da cozinha e pela alcatifa, criam uma cena de decadente, mesmo que organizado, fim de festa. Não posso entrar em nenhuma destas casas, mas posso ouvir as suas bandas sonoras: êxitos da música popular da altura como Ne me Quittes Pasde Jacques Brel, o musical Hair ou o festival de Woodstock tentam levar-me para outros lugares e outros tempos. Mas não conseguem.
Estes, como outros “grandes gestos” cenográficos da exposição, não me conseguem distrair do facto que estou de pé, num andar frio e mal iluminado de um prédio semi-destruído da Baixa lisboeta, perante uma casinha de plástico, rodeado de nuvens de drakalon e sinistros manequins nus. Foi para isto que foram feitas tantas revoluções?

Não sendo particularmente ambiciosa no seu argumento curatorial ou discurso histórico, “É proibido proibir!” ambiciona ser uma exposição arriscada, polémica até, na sua cenografia. Cenografia, não design de exposição, é o termo para descrever o trabalho do seu autor, José Manuel Castanheira. Com larga experiência e carreira no teatro, este cenógrafo revela as suas origens na excentricidade do desenho, na criação de imagens “que ficam”, no uso dramático de adereços. Isso tudo pode funcionar em palco, onde a atenção dos espectadores está nos actores. Mas aqui, nesta exposição, os objectos são os actores principais – não os manequins, as nuvens de carpélio ou as casinhas. O uso e abuso de materiais, superfícies e adereços chega mesmo a prejudicar a própria leitura e compreensão dos objectos expostos.
Aqui, o design de exposição funciona não a favor, mas contra os conteúdos que organiza e expõe. Em vez de comunicar o entusiasmo de uma época de prosperidade económica, de revolução de costumes e de grande efervescência cultural, a imagem “que fica” da exposição é a de um armazém abandonado, onde todos estes objectos excêntricos e de outro tempo foram deixados a apanhar humidade junto a manequins nus de braços abertos.

Das paredes à brochura entregue a todos os visitantes do museu, o design gráfico da exposição é igualmente desastroso. A densidade e posicionamento das manchas de texto, a tipografia e a má legibilidade mostram as limitações do designer Pedro Rosa. A isto soma-se o uso descomprometido de imagens de baixa resolução: a começar nos Beatles gigantes da Rua Augusta, passando pelos poucos e falsos “cartazes” que se repetem numa das paredes e terminando no vídeo onde Caetano grita (“sacado”, sem edição, do Youtube), a Internet mostra aqui ter sido uma fonte fácil e barata de elementos expositivos.
Estes desaires gráficos evidenciam ainda a relação difícil, para não dizer pouco profissional, que o MUDE tem tido desde a sua fundação para com o design gráfico. A anterior exposição temporária, dedicada a cartazes políticos, não parece ter tido qualquer impacto nessa relação.

Tão-pouco teve a exposição semi-permanente da colecção do museu, aberta desde a Primavera no piso térreo do edifício e um excelente exemplo de equilíbrio e sofisticação no uso do espaço expositivo, na iluminação e mesmo no cuidado gráfico de legendas e títulos. Neste primeiro andar, foi como se um espírito soixante-huitard frustrado, uma mal resolvida angústia punk ou uma valente dose de ácido quisessem ter minado a seriedade e o profissionalismo que esperamos do único museu do design do país.

Apesar de ainda estar a viver a sua (atribulada) pré-história, o MUDE necessita de se assumir perante a cidade a que pertence, a sociedade onde se insere e o grupo profissional que representa – e subir, não descer a parada. Ao colocar uma (falhada) afirmação cenográfica acima do rigor museológico, dos interesses da sua colecção e do conforto dos seus visitantes, mas também ao falhar (de novo) na comunicação gráfica dos seus conteúdos, o museu vê debilitada a sua própria seriedade, autoridade e relevância institucional. Felizmente para nós, a longa história da instituição ainda agora começou.

No documentário recente Beyond Ipanema – Ondas Brasileiras na Música Global, Caetano Veloso diz que um dos mais importantes traços e triunfos do movimento Tropicália foi “a ousadia da inteligência”. Se o MUDE se inspirou numa frase de Caetano no passado, eu desafio a sua directora, Bárbara Coutinho, a inspirar-se nesta para o seu futuro.

É Proibido Proibir! – MUDE, 20 de Outubro 2009 a 31 de Janeiro 2010.
Esta recensão foi publicada no site
Artecapital no dia 20 de Janeiro de 2010. Obrigado Pedro Baía e Sandra Vieira Jürgens.



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