O futuro do design desafiado em Istambul

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Até 14 de Dezembro Istambul faz-nos pensar o futuro através do design e, com ele, dá-nos esperança. Entre o “palácio branco” de Erdogan e milhares de manifestos, há muitas perguntas e caminhos possíveis nesta bienal.

No dia 29 de Outubro, 91.º aniversário da República da Turquia, Recep Tayyip Erdogan inaugurou em Ancara a residência que mandou construir enquanto primeiro-ministro. Devido a atrasos nas obras do complexo com mais de mil quartos, abrigo antinuclear e outras extravagâncias dignas de um sultão otomano, não foi com esse título que Erdogan se mudou para o seu “palácio branco” – fê-lo enquanto Presidente da República. Este edifício, cujos custo, legalidade, luxo e gosto têm sido questionados dentro e fora do país, é apenas uma das manifestações de como o design e a arquitectura têm sido empregados no projecto de Erdogan para a nação que dirige desde 2003.

Outros vão da mais benévola nova marca da Turquia lançada em Setembro à mais perversa reconstrução, sob a forma de centro comercial, de um quartel militar otomano demolido em 1940, que acabaria com o Parque de Gezi e com a Praça Taksim, o mais emblemático e politicamente activo espaço público moderno de Istambul. Foi em nome deste espaço público, mas também da democracia, da liberdade de expressão e do estado de direito que em Junho de 2013 o Parque de Gezi foi ocupado, inspirando outras manifestações por todo o país. O parque e a praça foram salvos, mas Erdogan não foi demovido do seu projecto de poder absoluto.

Na manhã em que o presidente acordou pela primeira vez na sua nova residência – cujo design, diz-se, é em grande parte do próprio – abriu a segunda edição da Bienal de Design de Istambul. Inspirada na frase do escritor francês Paul Valéry O futuro já nãé o que era e na atribulada história de mais de um século de manifestos de artistas, arquitectos e designers, esta bienal veio propor a uma cidade em contínua e desordenada expansão económica, urbana e demográfica, e a uma região sob um imprevisível redesenho geopolítico e étnico, um olhar radicalmente diferente para as intenções, potencialidades e consequências do design.

Consider Beauty, das designers britânicas Frith Kerr e Clare Cumberlidge, é uma provocação que invoca uma reflexão sobre a estética do quotidiano, propagada em turco e inglês em cartazes, outdoors, guardanapos, marcadores e outros meios de comunicação.  © Frith Kerr e Clare Cumberlidge
Consider Beauty, das designers britânicas Frith Kerr e Clare Cumberlidge, é uma provocação que invoca uma reflexão sobre a estética do quotidiano, propagada em turco e inglês em cartazes, outdoors, guardanapos, marcadores e outros meios de comunicação. © Frith Kerr e Clare Cumberlidge

Desafiar o design
A Bienal de Design de Istambul é o mais recente festival da Fundação para a Cultura e as Artes de Istambul (IKSV), criada em 1973 por um grupo de grandes empresários turcos. Além da Bienal (de Arte) de Istambul, que começou em 1987, esta fundação também organiza  festivais  de música, cinema e teatro. Pensada numa ótica empresarial e não como parte de uma política estatal para a promoção do design, a Bienal de Design assume-se como um contributo para o desenvolvimento do tecido industrial, da comunidade académica e da oferta cultural de Istambul. Curiosamente, desde o seu início a bienal tem desafiado qualquer lógica desenvolvimentista do design, apresentando antes o lado mais crítico e especulativo, mas também mais humanista e cosmopolita da disciplina.

Esse lado esteve patente há dois anos em Adhocracy (Adocracia), uma das duas exposições nucleares da primeira edição da bienal, cujos 60 projectos questionavam a relação entre designer, produtor e consumidor na terceira revolução industrial em que vivemos. Comissariada por Joseph Grima, o mais dinâmico curador de design e arquitectura dos nossos dias, tornou-se numa das mais influentes exposições de design dos últimos anos, sendo apresentada mais tarde em Nova Iorque e Londres (segue-se Atenas, em Maio).

Outrora o ginásio da Escola Grega de Galata, o Departamento de Transmissão é palco de conversas, workshops e apresentações. O design da exposição, dos turcos SUPERPOOL (estruturas) e dos americanos Project Projects (design gráfico) destaca-se pelo uso original de cortiça negra da Amorim, no que é uma surpreendente presença portuguesa nesta bienal. © Onur Dogman
Outrora o ginásio da Escola Grega de Galata, o Departamento de Transmissão é palco de conversas, workshops e apresentações. O design da exposição, dos turcos SUPERPOOL (estruturas) e dos americanos Project Projects (design gráfico) destaca-se pelo uso original de cortiça negra da Amorim, no que é uma surpreendente presença portuguesa nesta bienal. © Onur Dogman

Falem connosco
A preparação da bienal de 2014 começou no Verão de 2013, pouco depois da britânica Zoë Ryan, curadora de design do Art Institute of Chicago, ter sido convidada para comissariar a sua segunda edição. Ela e a curadora assistente, a canadiana Meredith Carruthers, começaram por organizar, durante o Verão quente da ocupação do Parque de Gezi, uma série de encontros, debates e “salões” com a comunidade local de designers e arquitectos chamada Talk to Us (Falem connosco), para melhor conhecerem o seu trabalho e inquietações. Paralelamente, lê-se no catálogo, lançaram em Dezembro passado um apelo internacional para propostas de “manifestos (quer sejam textos, acções, serviços, objectos, ou outra coisa qualquer) que imaginem um novo futuro”, pontos de vista que pudessem definir “novas possibilidades e pontos de urgência para o design no século XXI e mais além, enfatizando a relação complexa, porém essencial, entre o design e a vida quotidiana”.

In The Future, Everyone Will Be Heroic for 1.5 Minutes, do grupo Sarraf Galeyan Mekanik, repensa o papel do herói nos filmes de acção e jogos de computador; numa instalação interactiva, o visitante é posto em cenários heróicos, como a fuga segura e solene de uma explosão  © Sarraf Galeyan Mekanik
In The Future, Everyone Will Be Heroic for 1.5 Minutes, do grupo Sarraf Galeyan Mekanik, repensa o papel do herói nos filmes de acção e jogos de computador; numa instalação interactiva, o visitante é posto em cenários heróicos, como a fuga segura e solene de uma explosão. © Sarraf Galeyan Mekanik

5 andares de ideias
De um total de quase 800 manifestos recebidos e alguns convites directos foram seleccionados 53 projectos de 200 autores de mais de 20 países, sendo um terço de origem turca. Estes estão expostos até 14 de Dezembro na antiga escola primária grega de Gálata, que havia já albergado Adhocracy em 2012.

A exposição O futuro já nãé o que era distribui-se pelos cinco andares do edifício e está dividida em cinco departamentos. No Departamento Pessoal destacam-se manifestos relacionados com intimidade e identidade, num questionamento claro da narrativa heróica, masculina, ocidental e até bélica dos manifestos – de Adolf Loos a Filippo Tommaso Marinetti, de Le Corbusier a Rem Koolhaas. O projecto In The Future, Everyone Will Be Heroic for 1.5 Minutesdo grupo Sarraf Galeyan Mekanik, repensa o papel do herói nos filmes de acção e jogos de computador; numa instalação interactiva, o visitante é posto em cenários heróicos, onde são feitas mudanças subtis às regras do jogo. The Moonwalk MachineSelenas Step, da artista, estrela pop e engenheira informática japonesa Sputniko!, questiona a representação feminina nos media japoneses com um delirante vídeo de música sobre uma super-heroína astronauta.

Incomplete Manifesto for The Night, um manifesto da designer grega Clio Capeille que nos convida a reimaginar e revisitar a noite e nas estruturas, leis e políticas que a definem. © Clio Capeille
Incomplete Manifesto for The Night, um manifesto da designer grega Clio Capeille que nos convida a reimaginar e revisitar a noite e nas estruturas, leis e políticas que a definem. © Clio Capeille

O departamento de Normas e Regulamentos questiona a nossa relação com o status quo, ideias de qualidade de vida e o impacto da acção humana sobre o planetaInclui o fascinante Incomplete Manifesto for The Night, da designer grega Clio Capeille, que nos convida a reimaginar e revisitar a noite num manifesto de 19 pontos. Designing for the Sixth Extinction, da britânica Alexandra Daisy Ginsberg, propõe dispositivos biosintéticos reparadores de paisagens tóxicas e ecossistemas em extinção.

Alexandra Daisy Ginsberg, Rewilding with Synthetic Biology ©_Tommaso Lanza_+_Tom_Mawby
Alexandra Daisy Ginsberg, Rewilding with Synthetic Biology ©_Tommaso Lanza_+_Tom_Mawby

O departamento de Recursos explora a nossa relação com o mundo material e com o progresso. Iniciativas locais – Crafted in Istambul  e internacionais – Repair Society  a uma redescoberta da manufactura e do consumo, mas também da tecnologia, como o projecto de fim de curso da francesa Coralie Gourguechon, Rebuild the Electronic and Digital Toolsou dos sentidos, como o dicionário olfactivo NASALO da norueguesa Sissel Tolaas, a mais reputada cientista e artista contemporânea do olfacto.