Cartão de Cidadão

A semana em que comecei a escrever este texto sobre o Cartão de Cidadão coincidiu com o fim de validade do meu Bilhete de Identidade, por isso tive de tratar do meu próprio cartão. Aqui está a prova em como perdi 1 cm de altura no processo.

Quem hoje usar este pedaço de plástico para se identificar – esperemos que sem percalços – na sua secção de voto tem na mão o substituto dos antigos bilhete de identidade e cartão de eleitor (e cartão de contribuinte, de beneficiário da segurança social e de utente do serviço nacional de saúde). Mas também a ponta de um gigantesco icebergue de números, letras, imagens e símbolos que, impressos no cartão ou inseridos no seu chip, constituem o mundo de registos da nossa biologia e história pessoais. Só por isso o cartão de cidadão é mais do que uma manifestação da burocracia em que assenta a nossa democracia: é um mediador entre a nossa existência física e digital.

É também um daqueles objectos, produtos, serviços e sistemas que dão forma ao nosso quotidiano de uma forma tão discreta e anónima que julgamos terem surgido por geração espontânea, ou como resultado de um acto administrativo. Mas não, eles foram projectados por profissionais que trabalham, todos os dias, no design do nosso país. É a eles, e ao seu trabalho, que daremos aqui destaque ao longo das próximas semanas.

Um destes profissionais chama-se Henrique Cayatte. Como designer do cartão de cidadão, ele não projectou as máquinas que já registaram a altura, rosto e impressões digitais de mais de cinco milhões de cidadãos. Ou o site cartaodecidadao.pt. Ou o leitor com que podemos aceder em casa aos nossos dados. Estes e demais dispositivos de um sistema complexo foram projectados por centenas de outras pessoas, portugueses e estrangeiros. Cayatte ficou com o pedaço de plástico.

Quando em 2005 o vasto portfolio do seu atelier já incluía outras encomendas do Estado e do Governo, o Ministério da Administração Interna convida-o a coordenar o design do passaporte electrónico português e de um novo cartão de identificação.

Desenvolvidos simultaneamente, os dois documentos ostentam características, elementos e símbolos comuns. Entre eles estão o escudo português (simplificado, sem besantes), as meias coroas de louros que se complementam ou os tipos de letra Merlo e Flama, criados pelo designer de tipos português Mário Feliciano.

Mas nem tudo está à vista. “Nem imaginam o quanto eu desenhei que não se vê,” diz Cayatte, ao referir os mais de 30 dispositivos de segurança fizeram do passaporte que projectou o mais avançado do mundo quando foi lançado em 2006. Poderia estar também a falar da informação em Braille que permite distinguir de imediato frente e verso do cartão de cidadão. Ou à mudança de tom de azul entre séries de cartões, outro subtil “erro intencional” contra a falsificação.

Constrangimentos de segurança e normas internacionais de formatação de dados reduziram as margens de manobra no design do documento, já pequeno para tanta informação. Exemplo: a reduzida dimensão dos seus números e letras que, segundo Cayatte, foram ainda assim impressos no maior tamanho possível tendo em atenção as áreas previstas e disponíveis: “A linha dos algarismos (na frente) só podia ser uma e, naquele sítio, e os restantes elementos não podiam ser reduzidos ou mudar de lugar. Esta é a legibilidade máxima que se consegue com estas variáveis.” A legibilidade é acentuada através de dois níveis essenciais de leitura, em que a cor é usada para distinguir informação secundária (impressa a azul claro) de informação pessoal e principal (a preto).

Contudo, a maior conquista de Cayatte no design deste pedaço de plástico não foi “propor o sítio onde está o chip” ou determinar campos e parâmetros para a impressão de letras e números. Foi talvez a maneira como juntou, num documento com o qual nos identificamos enquanto indivíduos e enquanto povo, a informação que nos define aos símbolos que definem o estado-nação a que pertencemos. Por agora.

É que se o projecto de um símbolo nacional como este poderia ser o auge da sua carreira, Cayatte não tem ilusões sobre a grandeza ou perenidade do seu trabalho. Justificando com a máxima “o que o Homem fabrica, o Homem falsifica,” sabe que tanto a natureza humana como o inexorável avanço da tecnologia fazem com que a favor da salvaguarda das qualidades mais importantes deste documento e do sistema a que pertence – autenticidade e inviolabilidade – a sua vida seja limitada a alguns anos. Como tal, é apenas uma questão de tempo até que este cartão seja actualizado, substituído, redesenhado. Algo em que pensar no dia em que muitos de nós usam este pedaço de plástico para exercer o dever de cidadania.

BI
Cartão de Cidadão

Design
Henrique Cayatte Design

Cliente
Ministério da Administração Interna / Imprensa Nacional Casa da Moeda

Datas
2005 (encomenda)
2006 (lançamento)
2007 (implementação)

+ info: www.cartaodecidadao.pt