Carcaça

© Nuno Ferreira Santos/Público

Uma carcaça é feita de água, farinha, fermento e sal. Mas este pão não chega às nossas mãos, ou à nossa boca, como uma simples amálgama de matérias-primas: chega-nos de uma forma e com uma forma. Antes mesmo de o ser, uma carcaça só o é depois de ser feita a extracção do sal, a moagem do trigo, a canalização da água e a embalagem do fermento. Estes são apenas alguns dos inúmeros processos, sistemas e dispositivos que alicerçam não só a produção, distribuição e venda de produtos como o pão, mas toda a nossa vida em sociedade. Todos eles resultam, de uma forma ou de outra, de um processo de design.

E tal como os outros produtos, serviços, sistemas, embalagens e interfaces explorados nesta rubrica ao longo deste Verão, também a carcaça foi pensada e projectada por um português. Que neste caso, como em tantos outros exemplos, nem sequer é designer de profissão.

Vítor Moreira é engenheiro químico de formação, mas há muito que é conhecido como o “Papa do Pão”, um título que reconhece a importância deste octogenário para o ofício e indústria da panificação em Portugal.

Já trabalhava para a Fábrica Portuguesa dos Fermentos Holandeses quando na década de 1950, para compensar o aumento do preço dos cereais – que fazia, segundo ele, com que “um quilo de pão fosse mais barato que um quilo de farinha” – e limitar as importações, o governo de Salazar autorizou a redução do peso, mas não do preço, do pão.

Para melhorar a rentabilidade de cada padaria face às diminutas margens permitidas pela lei, Moreira pegou no papo-seco, “um pão de Lisboa”, e nele aplicou dois simples, mas importantes gestos. Primeiro tirou-lhe as duas extremidades pontiagudas, as populares “maminhas”. A seguir aplicou-lhe uma fenda no sentido do comprimento.

Devido ao “acabamento” das suas pontas, um papo-seco tinha de ser feito com duas mãos. Sem elas, uma carcaça produzia-se com uma mão apenas: era só pegar numa pequena porção de massa, enrolar, pousar e vincar.

Isto fez com que em vez de uma média de 40 papo-secos, um “padeiro razoável”, como lembra Moreira, conseguisse fazer “até 70 carcaças por minuto”.

O nome “carcaça” evoca “um pão que já se fazia em formato grande”, tão grande que a fenda era feita com o antebraço. Essa fenda tinha também, tanto na velha como na nova carcaça, uma função: ao aumentar a superfície exposta ao calor, potenciava a expansão da massa e, por consequência, o volume de cada pão. Ou seja, “mais pão” por menos peso.

Nos anos seguintes, os cursos e demonstrações promovidos pela Fermentos Holandeses junto de padeiros por todo o país encarregaram-se de espalhar o projecto de Moreira, fazendo deste o pão de cada dia em muitas padarias portuguesas.

Ao mesmo tempo, a progressiva inclusão de máquinas no processo de fabrico – como as tendedeiras, mesas rolantes e vincadeiras por ele idealizadas – industrializou o processo que através dos gestos introduzidos por Moreira se tornara mais “maquinal”. O que aumentou a escala, eficiência, produtividade e rendimento da panificação. E tal como outros processos de fabrico em que o design, ou um pensamento projectual, intervém para poupar recursos e aumentar ganhos, também este tinha como um dos seus objectivos principais a redução da mão-de-obra: fazer mais pão com menos postos de trabalho.

Todavia, o próprio Moreira assume que ainda hoje “a nossa padaria é artesanal”, ou semi-industrial: apesar de ser feito com máquinas, o pão não deixa de ser feito por pessoas. E o fazer do pão é só uma parte do processo, e dos projectos, que levam as suas quatro matérias-primas à nossa mesa.

Não foi para levar à letra o título desta rubrica que escolhemos a carcaça como o último dos seus sujeitos. Foi antes para reafirmar que, tal como o pão, o design não é nem um adjectivo, nem um acrescento, nem uma excepção à nossa vida quotidiana. E que, tal como os padeiros, os designers respondem à nossas necessidades e desejos mais elementares, reflectindo na sua actividade os contextos tecnológicos, sociais, culturais e políticos em que vivemos. Quase sempre discretamente. E todos os dias.

BI
Carcaça

Design
Vítor Moreira

Cliente
Inúmeros

Datas
Desde os anos 1950

833 Comments

  1. Finally, maybe among the factors that are most important to consider
    whenever choosing Forex Agents is their power to allow you to money.

    My web blog :: heart knowledge

  2. That is one among the prints for regular shifting signs
    around the Forex maps.

    Take a look at my blog post: banker dessert

  3. For every single successful newcomer to currency trading around seven end-up losing
    money.

    Look at my blog :: post

  4. Volume is not low and the actions are not insignificant; this implies there is no greater time to deal
    than when media is introduced.

    Take a look at my web blog discover highway wake

  5. You’ve to choose your training in Forex trades’ source very carefully so
    that you obtain the optimum take advantage of it.

    my homepage :: http://isonyoga.com/?p=1

  6. And I’m sure I will be in touch with him many more times how to implement
    b technique or x and to question him with regards Forex.

    My homepage; reflection

  7. These factors will help you decide whether provide or to get a couple of
    Forex currencies.

    Also visit my site … ugly screening

  8. Feel free to visit my blog sports betting advice, lzs.mechnice.pl,

  9. Review my web blog … ambition managing

  10. Listed below are recommendations on producing an application when you
    have been underemployed or worked from your home.

    my web-site … ruling pollution

  11. Then you certainly should produce a track record of
    regular winners in case you anticipate managing
    othersis income or developing a website to market trading alerts.

    Here is my website – one document divide

  12. My web blog sports betting websites, http://www.seim.cl,

  13. The trader to become contained in order to get and market
    would be required by technical forex transmission devices.

    Feel free to surf to my web page: implement regain medicine

  14. Do not begin trading Forex when you’re getting into forex markets on the industry that’s not
    thick lack public interest.

    Also visit my blog post – http://newsch.work/lupus-a-serious-disease-we-know-little-about/

  15. ban

    Commissions are not charged by many Forex agents, but rather earn money around the dealing spread.

    My web site – ban

  16. And that Iam sure I’ll be in contact with him several more situations how to employ x or y approach and to question him
    with Forex.

    Feel free to surf to my page tremendous due politics

  17. Among the greatest strategies to find out about the foreign exchange market is
    always to start a trading e-mini forex account.

    Here is my site … demonstrate insect

  18. Pingback: Google

  19. VeU8DD I will be sure to bookmark your blog and may come back down the road.

  20. InventHelp INPEX Trade Show

    Im obliged for the article. Really Great.

  21. “I am sure this article has touched all the internet people, its really really nice piece of writing on building up new weblog.”

  22. Keep on writing, great job!|

  23. “I am so grateful for your blog post.Much thanks again. Awesome.”

  24. Im thankful for the blog article.Thanks Again. Keep writing.

  25. Liking the article.. thank you I enjoy you giving out your point of view.. Appreciate the admission you given.. Is not it great once you discover a great publish?

  26. Thanks for the blog post.Really looking forward to read more. Really Cool.

  27. Pingback: MATKA RESULT

  28. Incredible points. Outstanding arguments. Keep up the good spirit.|

  29. Pingback: funny video

  30. Thank’s great post.

  31. Pingback: tower garden companies

  32. Pingback: Software

Leave a Reply