Helsínquia é uma cidade que projecta o inesperado

Como se visita uma capital do design? Onde está o design em Helsínquia e que histórias conta? Mudam-se as saunas, constroem-se edifícios temporários com vontade. Frederico Duarte

Helsínquia é uma cidade de edifícios baixos e cuidados, parques seguros, interiores confortáveis e vistas para o mar. Os preços são altos, o Estado é generoso e as coisas funcionam. Durante o longo Inverno, os seus habitantes são reservados. No curto Verão, desaparecem para as suas casas de campo ou para as ilhas nos lagos. Ao percorrer uma das largas avenidas da plácida capital finlandesa, tem-se a impressão de que há espaço a mais e surpresas a menos.

Esta não é uma cidade que faça disparar o coração. Mas a pulsação de Helsínquia está a subir. Há muitas gruas no horizonte, prenúncio de um novo bairro para 20 mil pessoas no velho porto e de novas escolas, casas, bibliotecas e sedes de multinacionais (muitas delas finlandesas) no centro e nos subúrbios. A cinco horas de Lisboa, a sete de Nova Deli e a meio caminho entre Nova Iorque e Pequim, o aeroporto de Vaanta é usado anualmente por 15 milhões de pessoas – quase três vezes a população do país. Desde 2010, um comboio pendular liga Helsínquia e São Petersburgo em menos de quatro horas. Novas linhas de eléctrico, barco, metro e bicicletas estão a ser traçadas, tudo sob a previsão de que até 2030 a população da área metropolitana aumente em 20% e que o número de residentes estrangeiros duplique. Helsínquia quer deixar de ser uma pequena cidade do Norte para se tornar numa grande capital do mundo. Será que consegue?

Este ano, Helsínquia é também a Capital Mundial do Design (CMD). Um título tão genérico quanto bem intencionado, que desde 2008 é atribuído de dois em dois anos a uma candidata pelo Conselho Internacional de Sociedades de Design Industrial (ICSID). Depois de Turim e Seul (e antes da Cidade do Cabo), Helsínquia é a cidade que mostra aos visitantes como é que o design, parafraseando o seu próprio mote, está “embebido” na vida da cidade e dos seus cidadãos.

Pavilhão que desaparece
“Se tudo tivesse corrido como planeado não estaríamos aqui”, diz Juulia Kauste, directora do Museu da Arquitectura Finlandesa, em pleno Paviljonki, o Pavilhão da Capital Mundial do Design (CMD). Esta ampla estrutura temporária de madeira no centro de Punavuori, um bairro dantes operário e hoje “de design”, é este ano o melhor ponto de partida para descobrir a cidade. Entre 12 de Maio e 19 de Setembro alberga um café, um balcão de informações e um espaço multiusos, cuja programação – coordenada pelothink-tank Demos Helsinki – inclui oficinas para crianças, palestras e debates, bailes e sessões de cinema. E ioga às quintas-feiras.

Juulia Kauste explica que o espaço vazio onde se ergue a estrutura, entre a instituição que dirige e o Museu do Design, instalado noutro edifício do século XIX no extremo oposto do quarteirão, deveria ter sido ocupado no final dos anos 1980 por um edifício permanente, uma extensão do Museu de Arquitectura. Mas a queda da União Soviética mergulhou a Finlândia numa forte recessão e o plano ficou eternamente adiado. E ainda bem, confessa: “Este pavilhão responde melhor às actuais necessidades do museu em termos de programação e de envolvimento do público” do que “mais uns metros quadrados de exposição”. É um tipo de pensamento transversal à programação da CMD, que assenta acima de tudo em projectos propostos pela sociedade civil e na participação criativa dos cidadãos.

Mesmo sabendo que o pavilhão vai ser desmontado em breve, Pyry-Pekka Kantonen, que nos acompanha no café e na conversa, considera que o desafio está mais do que ganho. Há ano e meio, a sua proposta para este local foi seleccionada entre as de outros alunos do Wood Studio, o prestigiado curso intensivo da Universidade Aalto dedicado à pesquisa, design e construção em madeira. Até Maio, ele e os colegas, professores e outros especialistas, desenvolveram e construíram o seu projecto.

Para o ainda estudante de arquitectura de 25 anos foi “uma oportunidade única” de trabalho e também de pertencer à tradição finlandesa de concursos públicos de arquitectura, que há mais de cem anos faz com que jovens como ele participem na construção do país e desta cidade. Unbuilt Helsinki(Helsínquia por construir) também integra a CMD e projectos de jovens arquitectos – mas aqueles que ficaram pelo caminho. A designer japonesa Nene Tsuboi e o colectivo londrino Åbäke materializam ao longo do ano, em objectos tão inesperados como um copo ou um cachorro quente, projectos para edifícios como os armazéns Stockmann ou o museu Kiasma – resultados a ver numa exposição e livro no fim do ano.


Sauna e vista para o futuro
Há 50 anos que não abre uma sauna pública em Helsínquia. Mas este ano isso vai mudar. Nene Tsuboi e o marido, o arquitecto e sócio do atelier NOW Tuomas Toivonen projectaram, estão a construir e vão gerir a nova sauna da capital. Vai chamar-se Kulttuurisauna, em homenagem a um inflamado manifesto escrito em 1925 pelo arquitecto finlandês Alvar Aalto. Está a ser erguido em frente a um complexo de habitação concluído nos anos 1980, numa pequena península então pensada para um café. Toivonen e Tsuboi (que sempre quis ter uma sentö, ou casa de banhos japonesa) não descansaram até obter a aprovação do seu projecto e respectiva licença de exploração (por 30 anos) deste terreno à beira-mar pertencente à câmara municipal. Ao percorrer os espaços dos futuros balneários, pátio, café e sala para eventos, Toivonen explica que este projecto quer acima de tudo “reavivar a tradição das saunas públicas”, mas também “pensar o que é, da função aos detalhes formais, um edifício público”. Para isso, procurou “simplificar ao máximo o projecto para que ele próprio o pudesse construir”. Mesmo assim, não conseguiu escapar às extensas “listas telefónicas” de regulamentos e burocracias. Porém, e muito por causa da CMD, a Kulttuurisauna mostrou ser uma enorme oportunidade de colaboração interdisciplinar. O néon foi desenhado pelos Åbäke, o telhado verde desenvolvido pelo departamento de biologia ambiental da Universidade de Helsínquia e há uma parceria com o gigante energético Fortum.

No fundo, quem vive na capital finlandesa ou quem a visita pode passar uma tarde num dos eventos únicos da capital do design ou visitar mais de 300 exposições, festivais, publicações, encontros e congressos. Os ministérios do Emprego e Economia e da Educação e Cultura, a Universidade de Helsínquia e a Universidade Aalto e os mais de 20 parceiros empresariais que perfazem os 50 milhões de euros de investimento financeiro no programa levam à conclusão de que quando os finlandeses falam de design, não andam a brincar às capitais.

De Aalto a Angry Birds
Hugo d”Alte nasceu no Porto há 37 anos e há dez mudou-se para a Finlândia por amor. Desde então trabalha como designer gráfico e director de arte. Janta-se no Seahorse, um clássico reduto de trabalhadores e arenque frito. “Para além das bandeiras e das brochuras” da CMD não tem notado “nada de diferente” na vida da cidade, confessa. Para ele, a capital do design fala mais para fora do que para dentro, servindo para posicionar a Finlândia internacionalmente através do design.

Mais tarde, uma cerveja no Cafe Mockba, o bar-homenagem à era Brezhnev dos irmãos e realizadores Mika e Aki Kaurismäki, que (só aparentemente) ficou imune ao entusiasmo da CMD. O único letreiro é uma velha folha A4 colada na montra. A música é de coros soviéticos; a iluminação é como o serviço, fria. É aqui que Hugo d”Alte fala dos monopólios e duopólios empresariais e estatais que ao longo de décadas tanto condicionaram a escolha dos consumidores como criaram as condições para o florescimento do design finlandês. Fazendo dos móveis de Alvar Aalto, Eero Aarnio ou Harri Koskinen para a Artek, os copos e taças de Kaj Franck ou Tapio Wirkkala para a Iitala ou os padrões coloridos da Marimekko provas do talento dos seus criadores e do poder das empresas que os contrataram. E, claro, do Estado que os soube promover aquém e além fronteiras.

De qualquer forma, o design finlandês não se encontra só nestes e noutros clássicos à venda nos lojas e bairros “de design”. Além dos telemóveis da Nokia, outros produtos são provas do sucesso mundial do design finlandês: dos elevadores e escadas rolantes da Kone aos scanners médicos da Planmeca, dos veículos de combate da Patria ao jogo Angry Birds da Rovio. Ou das soluções alimentares para intolerantes à lactose e ao glúten, nas quais a Finlândia é um líder global, produtos expostos nas prateleiras de qualquer supermercado. Food design à séria.

Restaurantes instantâneos
Frustrados com a burocracia necessária para abrir um café em Helsínquia, um grupo de amigos decidiu criar um dia em que qualquer pessoa podia abrir um restaurante. Durante apenas um dia. Sem pedir autorizações nem licença a ninguém. Era só cozinhar, montar uma mesa (na rua, no parque, na varanda) e vender os seus cozinhados a amigos e desconhecidos. E assim nasceu, a 21 de Maio de 2011, o primeiro Ravintolapäivä, ou Dia do Restaurante. Nesse dia foram criados 40 restaurantes em 13 cidades; no segundo, em Agosto, mais de 200; no terceiro, em Novembro, cerca de 300. Em Dezembro de 2011 a iniciativa ganhou o prémio para o Acto Cultural do Ano de Helsínquia. Em 2012 passou a realizar-se quatro vezes por ano (o próximo é já a 17 de Novembro), um pouco por todo o mundo.

O que parece ser não mais do que uma celebração da comida na cidade é também um acto de desobediência civil – o seu carácter excepcional faz com que seja, mais ou menos nervosamente, ainda permitido pelas autoridades – e um protesto contra o excesso de planeamento e regulamentação da sociedade finlandesa.

Pela maneira como contorna a burocracia em vez de a enfrentar e por usar de forma semelhante modelos de organização e redes sociais (Facebook, Google Maps, etc), o Dia do Restaurante assemelha-se ainda a protestos como o Occupy ou os Indignados – embora com intenções e resultados radicalmente diferentes. Esta comparação é feita por Dan Hill, um dos designers estratégicos do Sitra – Fundo de Inovação Finlandês e co-autor da publicaçãoHelsinki Street Eats, que analisa a história da comida de rua na capital (ver guia prático). O fundo – cuja equipa internacional reporta directamente ao Parlamento – tem vindo a desenvolver projectos nas áreas da saúde sustentável, energia local ou construção participativa. Mas é na alimentação que eles mostram como o design tem tanto reflectido quanto impulsionado grandes transformações na sociedade finlandesa. Quando nos encontramos – à mesa, na rua -, Hill diz à Fugas que esta celebração da surpresa em vez do planeamento, da táctica em vez da estratégia, representa um tremendo desafio à natureza centralizada de qualquer Estado, mas sobretudo do finlandês. E dá um exemplo: “O governo decidiu que até 2015 os jardins de infância finlandeses [públicos e gratuitos] têm de incorporar alimentos biológicos nas suas refeições”. Para tal, “o Estado tem como que puxar uma enorme alavanca” para pôr em marcha uma série de procedimentos, sistemas e agentes. Ao incorporar as intenções e consequências de fenómenos como o Dia do Restaurante – e muitos outros também destacados pela CMD (ver guia prático) – poderão designers como ele dar um real contributo para melhorar e humanizar processos como este, que tenham um verdadeiro impacto na vida dos cidadãos? Muito do que está a acontecer este ano em Helsínquia prova ao mundo que sim, é possível ter o design “embebido” na vida de uma capital. E que isso pode significar planear menos e estar mais aberto à surpresa, à contingência e aos desejos das pessoas (que não são só consumidores). Não é preciso passar muitos dias em Helsínquia para perceber que aqui o coração bate mais depressa quando se vê que há lugar para projectar o inesperado.

A Fugas viajou a convite da Helsínquia 2012 – Capital Mundial do Design em cooperação com Ministério dos Negócios Estrangeiros da Finlândiade

Baseado numa semana passada em Helsínquia numa “press trip” de arquitectura e design, este texto sobre a Helsinquia WDC 2012 foi publicado no suplemento Fugas do Púbico a 8 de Setembro 2012, juntamente com o texto sobre a ilha de Utö.



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