Instabilidade

“Quer ADSE?” Esta pergunta foi-me feita no dia 12 de setembro de 2011 no departamento de Recursos Humanos da FBAUL, depois de eu assinar o meu contrato de assistente convidado. Estava agora de volta à faculdade de onde havia saído no início de 2003 após concluir a minha licenciatura em Design de Comunicação no fim de 2002. Na altura não soube de imediato como responder, mas soube imediatamente a promessa que esta pergunta continha: estabilidade. Por isso respondi, naturalmente, “Sim.”

Tive a enorme sorte ou talvez o privilégio de nunca ter estado desempregado desde que deixei de estudar. Ou melhor, desde que concluí o meu primeiro ciclo de estudos, esse longo contínuo que começou com a minha entrada aos seis anos de idade numa escola primária em Alvalade, continuou numa escola preparatória nos Olivais, numa escola secundária também nos Olivais e noutra escola secundária entretanto demolida na Cidade Universitária, para terminar com a minha saída da faculdade aos 23 anos. Ao longo deste longo período nunca chumbei e tive sempre boas notas. Mas também gozei, e é importante reconhecê-lo, do conforto e estabilidade material e emocional que uma família de classe média lisboeta na transição do século XX para o XXI pôde oferecer. Entre muitas outras coisas, através dos meus pais, ambos funcionários públicos, eu tive direito à ADSE toda a minha vida – até ao dia em que saí da faculdade.

O período em que não tive direito à ADSE pode ser descrito como a minha carreira profissional. Se fosse um gráfico esta seria uma linha do tempo confusa, com mais pontos que barras, cheia de sobreposições e hiatos. Dessa linha constariam apenas quatro contratos de trabalho. O primeiro, de seis meses, enquanto estagiário no departamento de design numa agência de publicidade na Malásia onde comecei a trabalhar apenas duas semanas depois de acabar o curso. O segundo, de um ano, enquanto bolseiro na Fabrica, o centro de pesquisa em comunicação da Benetton em Itália. Interrompi este contrato ao fim de oito meses, com a determinação de que não era nem bom o suficiente nem suficientemente interessado em exercer design gráfico enquanto profissão. Foi talvez este o grande “próximo passo” da minha carreira como não-designer.

Nunca perdi, porém, o interesse em design para além da sua prática. Foi isso que me fez começar a procurar leituras, exposições, conferências, debates e pessoas, e a viajar tanto e sempre que possível, para que pudesse conhecer mais, compreender melhor e, em última análise, dar a entender o que é que os designers fazem e porque é que o seu trabalho é importante.

Foi também por isso que em 2005 aceitei o convite para deixar a Fabrica e regressar a Lisboa e à equipa da Experimentadesign, onde comecei quando ainda estava a estudar como designer assistente durante um mês, e onde fiz de tudo um pouco: comunicação, produção, curadoria e pesquisa, a talvez mais indefinida das funções deste cargo sem contrato, a qual consistia sobretudo em ler revistas de design – o meu passatempo predilecto desde os primeiros anos de faculdade.

Foi então que arrisquei começar a escrever sobre design. Sem formação nem experiência, mas com a vontade de pertencer e contribuir para uma comunidade de profissionais e de estudantes que afinal era a minha. Comecei primeiro em inglês e, depois de me demitir da Experimentadesign no fim de 2006, também em português. Este foi o segundo “próximo passo” da minha carreira: viver sobretudo da escrita sobre design. Fui conseguindo-o – além de outras coisas que fui fazendo, sozinho ou com amigos e desconhecidos, tais como um livro sobre bolos – ao desafiar algumas das revistas internacionais com as quais cresci a ler e também, talvez o desafio maior, o jornal Público, onde durante dois anos fui ocupando um lugar nunca antes definido: o de crítico de design.

No Verão de 2007 descobri, ao ler na praia numa pequena notícia na revista americana Metropolis (as revistas, sempre), que abriria em 2008 na School of Visual Arts o primeiro mestrado precisamente em crítica de design. O meu enorme terceiro “próximo passo” começou nesse mesmo dia, com um pedido de informações dirigido ao email geral da escola; continuou com uma candidatura ao curso e outra à bolsa das Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, a qual me permitiu viver em Nova Iorque durante quase dois anos sem passar fome nem contrair dívidas, e estudar despreocupadamente num mestrado acabado de começar e sem qualquer promessa de “saídas profissionais”.

Foi da mesma forma impulsiva que escolhi o Brasil como o assunto da minha tese. Não sabia ao que ia mas sabia que queria saber mais sobre como é que os designers brasileiros estavam a viver e a reagir a um momento histórico de crescimento económico e mobilidade social do seu país. Foi então que, em menos de um ano, todo um novo conjunto de descobertas, conhecimentos e oportunidades se me abriram.

Entretanto, a crise que começou com a falência da Lehman Brothers duas semanas depois do curso começar aliou-se à convulsão digital e social nos meios de comunicação, fazendo com com que muitos jornais e outras publicações, incluindo várias publicações de design, fechassem ou se fossem aguentando com equipas, orçamentos e números de leitores cada vez mais reduzidos. Se em 2002 uma licenciatura de cinco anos em design de comunicação em Lisboa não garantia um emprego, em 2010 um mestrado em crítica de design em Nova Iorque não garantia absolutamente nada. Se bastantes dos meus 50 e tal colegas de licenciatura ainda trabalham hoje como designers – de uma forma mais ou menos precária, mais ou menos estável – nenhum dos meus 14 colegas de mestrado pôde sequer ambicionar fazê-lo. Isto, é claro, se pensarmos que um curso nos poderá dar qualquer tipo de garantia. Eu nunca pensei tal coisa.

Ainda no último semestre do mestrado tive a oportunidade ser um de 11 assistentes de uma professora na Parsons School of Design, o que me deu a minha primeira experiência lectiva e o terceiro contrato de trabalho. Este acabou uma semana depois de eu terminar o mestrado com a pompa, circunstância e cerimónia envolvidas numa “graduação” à americana. Foi então que me vi, no Verão de 2010, como um crítico de design especialista em design brasileiro não necessariamente desempregado mas sem saber o que fazer a seguir.

O meu quarto contrato de trabalho chegaria no fim desse Verão, pouco depois de regressar a Portugal. Fui então convidado a fazer parte do corpo docente do mestrado em Design de Produto que então estava a começar na Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha (ESAD.CR). Contrato a 50%. Segurança Social paga. Uma ida por semana às Caldas. O desafio de pensar numa disciplina que poderia ser o que eu queria num curso que ainda não sabia o que queria ser.

Não deixei de escrever – nem poderia, pois o ordenado auferido nas Caldas da Rainha não dava para pagar a renda em Lisboa. No Verão de 2011 desafiei uma das então editoras da revista de domingo do Público a ter uma coluna dedicada ao design feito por e para os portugueses. Chamei-a “O design nosso de cada dia”. É um dos meus “próximos passos” que mais trabalho, mas também mais prazer me deu.

Foi então em Setembro de 2011 que cheguei a uma espécie de momento de “fim da história” da minha carreira. Tinha dois contratos part-time como assistente convidado, direito a subsídios de férias e de Natal (menos aqueles que foram sendo descontados em nome da austeridade) e agora também a ADSE. Tinha um ordenado que me permitia pagar a renda. Tinha estabilidade. Ao regressar à FBAUL tinha também, de alguma forma, voltado a casa. Ambicionava contribuir com a minha experiência, reunida ao longo de uma carreira multifacetada, atribulada e peripatética, para a licenciatura e agora também o mestrado para os quais havia sido convidado a leccionar. Nos três anos seguintes, tanto na FBAUL como na ESAD.CR as disciplinas foram-se multiplicando, as turmas aumentando, e o trabalho acumulando – e também o trabalho fora da universidade, que nunca quis deixar de ter. Mas a história não acabaria aqui. Cada vez mais o meu próximo passo, quisesse eu assegurar a estabilidade profissional conseguida, passaria por um doutoramento. Mas como, onde, com quem e sobre o quê?

A resposta a estas perguntas chegou em Fevereiro de 2014, com o anúncio de uma bolsa de investigação doutoral do Victoria & Albert Museum e da Birkbeck College da Universidade de Londres, dedicada ao design brasileiro contemporâneo. Candidatei-me, fui entrevistado, admitido. Candidatei-me também à bolsa de doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia, soube que me fora atribuída em Janeiro, passei a recebê-la em Agosto. Sou desde então estudante de novo, a 100%. Mas não sem terminar o meu contrato na ESAD.CR a 31 de Julho de 2014 e com a FBAUL a 31 de Julho de 2015, data em que deixei de ser beneficiário da ADSE apesar do meu cartão caducar no dia 11 de Setembro de 2015 – o prazo inicial para a entrega deste texto.

Hesitei muito em aceitar escrever este texto. Não sabia o que dizer, não queria dar conselhos sobre os “próximos passos” de quem está agora a terminar uma licenciatura de três anos da qual participei enquanto docente mas de cuja geração não faço parte. Não queria soar demasiado pessimista, ou optimista, nem apelar a generalizações virtuosas como responsabilidade social, consciência profissional, atitude crítica ou inscrição política “no design” ou fora dele.

Tentei assim revelar os momentos “agora, irrepetível” da minha carreira profissional, para mostrar que mais do que uma grande caminhada rumo à estabilidade esta foi um percurso sinuoso de pequenos passos, traçado a sós e com outros, composto por semelhantes doses de sorte, de cumplicidade, de confiança, de curiosidade, e de estudo, de trabalho e de ambição. Tal como vocês, caros finalistas, eram até há pouco, agora e nos próximos três anos sou eu de novo o estudante. Encontro-me do outro lado do vosso espelho. Contem-me vocês como andam no mundo real.

Frederico Duarte
Londres, 30.09.2015

Texto incluído na publicação Agora, irrepetível. A juventude, o design e a sua prática, a qual reúne a produção dos alunos Finalistas 2014-15 de Design de Comunicação de Belas-Artes da ULisboa, como um dos ensaios temáticos assinados por oito dos seus docentes em torno do tema a juventude.

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