Copenhaga – Manual de mudança

© Luís Fonseca

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Um dia destes mudo-me para Copenhaga. Razões não me faltam: depois de ter sabido que, há poucos meses, a re­vista Monocle colocou a capital dinamarquesa no topo da sua lista das 25 melhores cidades do mundo para se viver (Lisboa ficou com um promissor 24.° lugar), pude visitar a cidade mais uma vez. E nos quatro dias em que lá estive, tive oportunidade para a conhecer ainda melhor ao falar com alguns dos seus mais ilustres habitantes.

Um dia destes, mudo-me mesmo para Copenhaga. Mas vamos por partes. Em primeiro lugar, a distinção: A Monocle, dirigida pelo canadiano Tyler Brûlé – fundador da revista Wallpaper*, a verdadeira «bíblia do cool» dos anos 90 –, é uma espécie de híbrido entre revista de moda e de negócios, uma publicação de referência para as mulheres e homens de sucesso do mundo globalizado. Revistas – e listas – há muitas, mas o ranking da Monocle introduz critérios de qualidade e de exigência em sintonia com o estilo de vida contemporâneo do séc. XXI, onde o global e o local se fundem, mas nunca se confundem. Critérios de selecção como transportes públicos, ligações aéreas inter­nacionais, qualidade do ambiente, instituições de ensino e cultura, comida e vida nocturna foram tomados em conta na elaboração desta exclusiva lista. Para além de melhor cidade para se viver, a Monocle atri­buiu a Copenhaga o título de «cidade de design», honrando o seu design urbano, qualidade de infra-estruturas e até o índice de felicidade dos seus cidadãos. Tal título não passou despercebido ao governo dinamarquês, que não hesitou em promovê-lo através dos seus meios diplomáticos, entre os quais a Embaixada em Lisboa. Em Julho recebi um convite para visitar Copenhaga e verificar a validade das afirmações da Monocle – não como jornalista, nem tão-pouco como «jornalista de viagens» mas como alguém que tem escrito sobre design ao longo dos últimos dois anos. Foi através desta perspectiva que, ao visitar a cidade quis encontrar respostas para uma pergunta: estará Copenhaga desenhada para se viver?  Foi com esta pergunta que comecei as doze conversas que tive com habitantes e nativos de Copenhaga, todos «profis­sionais criativos» da cidade. Perguntas e respostas construí­ram uma imagem do que é o design da capital da Dinamarca, mas também um retrato da sua sociedade. Foi a partir destas perguntas, mas também das minhas observações recolhidas na cidade ao longo de quatro dias, que elaborei o que pode ser encarado como o meu próprio manual de mudança para Copenhaga.

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A pequena cidade do design
Para Thomas Bentzen – 39 anos, mestre carpinteiro e designer de produto – viver em Copenhaga é “poder usufruir de toda a cidade num só dia”. Ao contrário de grandes metrópoles e de outras cidades cuja topografia, rede viária e planeamento não facilitam a mobilidade, aqui a escala urbana, as redes de transportes públicos e de vias para bicicletas entrecruzam-se e complementam-se. As deslocações entre as várias zonas da cidade são rápidas e simples, tornando-a – tanto no mapa quanto na paisagem urbana – facilmente “legível” e navegável. Este é mesmo um dos aspectos cruciais do “bom design” de Copenhaga: planeamento urbano, circulação e zonas pedonais dão face uma cidade onde os peões e as bicicletas – e não ao automóvel – têm prioridade. Kigge Hvid – 47 anos, directora dos prémios index – acrescenta que uma das melhores coisas de Copenhaga é “poder ir de bicicleta para todo o lado, e no caminho acenar a pessoas conhecidas.”

Quase todas as pessoas com quem falei mandavam cumprimentos para o entrevistado seguinte – a comunidade criativa dinamarquesa é tão pequena quanto o país (cerca de 5,5 milhões de habitantes) e a sua capital (cerca de 500 mil). Os pequenos círculos sociais, profissionais e de ensino fazem com que toda a gente se conheça: designers, arquitectos, artistas, até pessoas ligadas a instituições, centros de decisão política e indústria encontram-se unidos por muitos laços em comum. Para Bentzen, isso é algo de positivo, pois “apesar de haver concorrência, há um sentido de comunidade e de entreajuda” entre pares. Para Jacob Langvad, – 32 anos, fotógrafo – a dimensão do país tem como consequência uma comunidade coesa, mas também um mercado pequeno e facilmente saturado. Langvad, que trabalha principalmente em moda e publicidade,  prefere aventurar-se – pelo menos por enquanto – por outras paragens: a viver em Paris depois de Nova Iorque e São Paulo, não pretende regressar tão cedo à sua cidade natal. Para Rasmus Ibfelt – 35 anos, designer gráfico e um dos sócios fundadores do atelier de design de comunicação e-types – isso não é problema: trabalha cada vez mais com clientes estrangeiros, mas sempre a partir de Copenhaga.

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Mas o que é afinal o design dinamarquês?
Quando se fala de “design dinamarquês”, o termo geralmente aplica-se a design de mobiliário e de produto. Designers e arquitectos – como Hans Wegner, Arne Jacobsen, Poul Henningsen ou Verner Panton – criaram, nos anos 50 e 60, as cadeiras, os candeeiros e outros objectos de linhas simples e modernas, materiais e acabamentos de alta qualidade que deram significado ao termo. Este produtos foram pensados e produzidos para a sociedade do Estado-providência que emergia na Europa do pós-guerra, tornando-se rapidamente parte das casas, escritórios e espaços públicos de toda a Dinamarca. Ou seja, estão em todo o lado.

Após o domínio dos “mestres modernos”, o design dinamarquês passou como por um período de hibernação, dando origem ao que Cecilie Manz – 36 anos, designer de produto –  considera de “geração perdida”. Segundo ela, “durante os anos 80 e 90 nenhum nome ou objecto de importância maior se destacou, não havia sequer um sentido de comunidade”. E foi uma nova comunidade que iniciou o “renascimento” do design dinamarquês: designers jovens, dinâmicos (muitos formados no estrangeiro) aliaram-se a novos fabricantes e outros agentes, dando nova vida a uma indústria que se encontrava como que adormecida e demasiado dependente dos clássicos. Um desses “agentes” é Thomas Lykke – 37 anos, director da consultora OeO Studio – que admite “não podermos fazer nada sozinhos”. Trabalhando como “ponte” ou “catalisador” entre designers, fabricantes, marcas e meios de comunicação – entre os quais a própria revista Monocle – Lykke tem desempenhado um papel fundamental na dinamização do “novo design dinamarquês”, identificando necessidades e tendências da indústria e pondo pessoas a trabalhar em conjunto.

Há ainda outro factor para esta mudança ter chegado tão tarde. Ditte Hammerstrøm – 37 anos, designer de mobiliário – disse-me que “os dinamarqueses têm uma grande necessidade de ‘confirmação’, por isso é raro fugirem do padrão do que é considerado ‘aceite’ ou ‘bom gosto’ pelos seu círculo social ou familiar. Isso explica o facto dos “clássicos modernos” do design serem ainda tão populares, mesmo entre os jovens que, acabados de sair da universidade, poupam dinheiro (e bastante) para comprar conjuntos de mesas e cadeiras desenhados por “um dos grandes”, iguais àqueles com que cresceram. Com os filhos a comprar o mesmo que os pais, os principais nomes da indústria do mobiliário como a Fritz Hansen ou a Louis Poulsen não tiveram necessidade de procurar novos talentos. Este estado de coisas apenas começou a mudar quando novas empresas, como a Normann Copenhagen, a Hay, a Muuto ou a Mater, surgiram entre o fim dos anos 90 e início deste século, provando haver lugar para novos produtores independentes de objectos e mobiliário.

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Espaço para o risco
“A escala, o equilíbrio entre tradição e modernidade, os espaços públicos, os parques, a água; todos estes elementos fazem com que Copenhaga seja compreensível e confortável para a mente e corpo humanos.” Kigge Hvid declara que viver em Copenhaga é acima de tudo viver com o conforto proporcionado pela estrutura social da Dinamarca: “A felicidade das pessoas que vemos nas ruas, os muitos carrinhos de bebé, os idosos, os imigrantes, vem da sensação de conforto que o Estado proporciona aos cidadãos. Saber que não tenho de ir viver para a rua amanhã se ficar sem emprego hoje permite-me poder concentrar no que é importante: a criatividade acontece nesse superavit de conforto.” Rasmus Ibfelt assume, por outro lado, que o futuro da sociedade e da criatividade dinamarquesas passam por sair dessa zona de conforto: “Os nosso valores são uma mais-valia, mas a sociedade dinamarquesa é muito acomodada e consensual. É preciso arriscar mais, trazer mais gente de fora, cometer erros, provocar ‘pequenas explosões’”. Para ele os motores da mudança são a moda e arquitectura: Arquitectos de renome internacional, mas também locais, como o prolífico jovem arquitecto Bjarke Ingels, têm vindo a assinar novos projectos de arquitectura. Edifícios como o auditório desenhado por Jean Nouvel que abre em 2009 e para o qual os e-types criaram a identidade visual – estão a mudar radicalmente a paisagem de Copenhaga. Para Ibfelt, a moda é também um meio exemplar para arriscar; através do seu trabalho com o estilista Mads Nørgaard, os e-types têm transmitido essa provocação, ao usar mensagens como “Obama is the New Black” em T-shirts e roupa interior. E neste caso uma mensagem vai bem longe: a moda é a quarta maior indústria da Dinamarca em termos de produção de riqueza e, com duas edições anuais da semana da moda e feiras de importância mundial, Copenhaga é considerada uma das principais capitais europeias da moda – a seguir a Paris, Londres e Milão. O mais curioso é que, tal como o design de mobiliário dinamarquês, também a moda encontrou nas suas origens democráticas a receita para o sucesso. Ao invés de fazerem colecções de alta-costura, os designers dinamarqueses arriscaram criar as suas próprias marcas, associarem-se à indústria (mesmo que a quase totalidade da produção seja feita no estrangeiro) e criam colecções que são ao mesmo tempo acessíveis de vestir e de comprar.

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Montras de loja, vitrines de museu, capas de revista
“Gostaria que houvesse um sítio onde pudesse ver a riqueza e a evolução do mobiliário dinamarquês”. Kigge Hvid está a falar não das muitas lojas que o vendem, mas de instituições que mostrem, promova e expliquem como é que um país tão pequeno teve, e continua a ter, um papel tão importante na definição de uma estética e de uma cultura apreciadas em todo o mundo. A falta de instituições e plataformas para divulgação do trabalho de designers, particularmente nos campos do design de mobiliário e de produto, é um problema reconhecido por todos. Susanne Wolff, do seu departamento de imprensa do Centro Dinamarquês de Design, admite que, apesar de não poder fazer tudo, o centro cumpre a sua função: como outras instituições suas congéneres em todo o mundo, divulga a actividade do design junto de pequenas e médias empresas, e promove a profissionalização da actividade dos designers. O Kunstindustrimuseet, ou Museu de Artes Aplicadas, deveria ser uma das principais instituições para promover o design, mas apesar de ter uma considerável colecção de artefactos que vão desde a Antiguidade aos nossos dias, o seu discurso expositivo é desajeitado e a informação é confusa. Exposições comissariadas são raras, sobretudo as que vão mais longe do que a carreira de um só indivíduo. Não existe também nenhuma revista de design dinamarquesa, e nenhum dos entrevistados considera que o design é tratado de forma adequado pelos meios de comunicação social. Há muito a fazer, portanto.

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Os Custos e os Valores
Os sucessivos anos de alto crescimento da economia dinamarquesa promoveram nos últimos tempos uma sociedade mais polarizada, conservadora e intolerante: o pequeno reino da Dinamarca, “porto de abrigo” social-democrata de refugiados e exilados políticos de antes, deu lugar a um país dirigido por um governo de direita, cuja política de imigração é a mais restritiva de toda a União Europeia. Esse “olhar para dentro” tem prejudicado também a fixação de profissionais criativos na Dinamarca, criando um dos piores entraves ao crescimento do país enquanto potência criativa.

Outro factor é o custo de vida, sobretudo o custo do imobiliário. É difícil encontrar espaço para ter um atelier e os que existem parecem estar ocupados; alguns têm mesmo listas de espera. Tal é o caso do Mercado de Carne, um complexo de processamento e distribuição de carne dos anos 30 ainda em funcionamento, para onde artistas e designers se estão a mudar nos últimos anos, seguidos de galerias e bares “da moda”. Entre eles estão Rebekka Ehlers – 31 anos, fotógrafa – que teve “a sorte” de aí poder sub-alugar uma parte de um estúdio: “Apesar de não parar lá muito, é uma morada que dá jeito ter”; desengane-se quem pensar que este mercado é um clássico caso de património industrial ocupado por artistas, como há em muitas outras cidades. O Mercado de Carne, como outros espaços semelhantes, é propriedade da Câmara de Copenhaga, que cobra renda como outro senhorio qualquer. Ou seja, também aqui o Estado é omnipresente.

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“Há falta de espaço em Copenhaga. Espaço físico, em termos de escritórios, ateliers e mesmo de casas, mas também, de certa forma, de espaço mental.” Esta crítica é feita por Thomas Pålsson – 29 anos, designer gráfico e um dos sócios do atelier Them – que através do seu colectivo de “activismo cultural” Skæve Børn (Crianças Inadaptadas) tenta agitar as consciências os cidadãos de Copenhaga com performances e instalações urbanas. Para ele, a sociedade dinamarquesa tende para a uniformidade, incluindo a sua própria “classe”: “Existe em Copenhaga um excesso de designers. Toda a gente quer ser designer, a percepção que as pessoas têm da profissão faz com que ser designer esteja na moda”. O resultado é um conjunto de profissionais desafectados da realidade em seu redor, muitas vezes apenas preocupados em perpetuar um estilo (o estilo dinamarquês?) do que fazer a diferença.

Foi precisamente isso que Higge Hvid quis fazer, ao criar o prémio index. Em 2000 identificou uma lacuna no “mundo do design” que Copenhaga, e a Dinamarca, estariam numa posição privilegiada para preencher: a promoção do design como uma disciplina com consciência social e ambiental. Em 2007, produtos vindos de todo o mundo deram corpo a uma exposição que foi montada na praça Kongens Nytorv e vista por quase meio milhão de pessoas. Sob o lema “Design para melhorar a vida”, o prémio index não pretende ser uma montra para o design dinamarquês, mas sim uma iniciativa que através dos seus valores mostra que um mundo sustentavelmente projectado é possível. No Verão de 2009, a terceira edição deste que é o maior prémio de design do mundo terá lugar durante a primeira edição da “Semana do Design” de Copenhaga, sinal do crescente reconhecimento nacional e internacional desta iniciativa

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Ao fim de quatro dias e muitas horas de perguntas e respostas, não consegui decidir se me hei-de mudar para Copenhaga. Pude concluir sim que o que torna esta cidade, o seu design e o trabalho dos seus “cidadãos criativos” especial é um delicado equilíbrio entre a percepção de uma vontade comum e a necessidade de expressão individual, o que é raro. Quase todos os entrevistados elegeram Berlim como o paradigma actual da “cidade criativa”: o baixo custo de vida, a abundância de espaço, a informalidade e a imprevisibilidade da capital alemã fazem com que cada um deles queira que Copenhaga fosse um pouco mais como Berlim. Porém, nem toda a gente parece querer prescindir do seu equilíbrio, do seu conforto – o qual afinal pode também ser desenhado – e mudar-se para lá de um dia para o outro. Como qualquer habitante de uma das 25 cidades da lista da Monocle, podem sempre visitar Berlim (ficou em 14º lugar) e saber se vale a pena a mudança. Mas regressarão sempre a Copenhaga, também por eles desenhada para viver.

Escrevi este artigo de 19 páginas para a Vida & Viagens após um convite da Embaixada da Dinamarca em Lisboa para visitar a cidade, após a distinção da Monocle em Julho de 2008. Passei cinco óptimos dias em Agosto às voltas pela cidade em encontros e entrevistas, onde tive o privilégio de ter uma perspectiva da sociedade dinarmarquesa “filtrada” por alguns dos seus profissionais criativos. O artigo saiu apenas em Fevereiro de 2009, e foi capa da revista. Gostaria de agradecer a todas as pessoas que me receberam nos seus estúdios, à Ana Pereira da Silva da Vida & Viagens e especialmente à Lisbeth Andersen da Embaixada da Dinamarca pelo convite e entusiasmo.
As fotografias de Copenhaga que ilustram este post são do arquitecto e fotógrafo Luís Fonseca, que visitou Copenhaga pouco depois de mim e “trouxe de volta” para Oslo, onde vive, “vistas” da cidade e dos seus habitantes que estiveram comigo enquanto escrevi esta peça. Um delas, a última neste post, foi publicada pela VV, e foi quase capa da revista… Fica para a próxima Luis.